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Jun
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À procura do rato

[via Daring Fireball]

 

Clay Shirky, autor do livro “Here Comes Everybody” e especialista na relação inevitável entre progresso tecnológico e social, faz no seu artigo “Gin, Television and Social Surplus” uma análise acutilante a uma situação que sempre despertou uma série de inquietações, umas mais optimistas e outras menos: Cada vez passamos mais tempo “agarrados” (uns mais do que outros 😉 ) ao computador, mais especificamente conectados à internet.

De acordo com o autor, o qual aponta estatísticas nesse sentido, os utilizadores da internet que a ela vivem “agarrados” não têm agora nem mais nem menos tempo livre do que tinham anteriormente; esse é um bem que se tem mantido relativamente inalterado, sendo que o que mudou foi a gestão do mesmo. Assim, começamos agora a investir o nosso tempo na criação de conteúdos próprios em detrimento do consumo acrítico dos produtos propostos pelos media convencionais, nomeadamente a televisão.

Menciona alguns exemplos, entre os quais a extremamente popular Wikipedia (Inglês, Português), como sendo os grandes beneficiários desse investimento e anunciadores da mudança de paradigma que se avizinha. De súbito, os meios de comunicação de massas passam a ser, em certa medida, acessíveis às próprias massas, o que simultaneamente agiliza o processo de recolha e transmissão da informação, assim como aumenta a resistência da mesma face a potenciais manipulações por parte de determinados interesses instituídos.

Não posso deixar de concordar com o autor quando considera que certas actividades aparentemente fúteis como frequentar, quer como consumidor quer como contribuidor, páginas (hilariantes, por sinal 😀 ) como os Lolcats pode ser mais útil que ficar sentado à frente de um ecrã de televisão; digo-o por experiência própria, visto que “a cavalo” de uma actividade maioritariamente lúdica (mesmo sem entrar sequer em considerações sobre a utilidade vital do sentido de humor na vida de uma pessoa) descobri algumas informações inquietantes sobre a indústria da comida para animais, nos fóruns do mesmo site…

Mais: situações como a que se passou recentemente no nosso país, em que um vídeo de uma agressão de uma aluna a uma professora colocado no YouTube acabou nos jornais televisivos e gerou um aceso debate de ideias, repetir-se-ão. E, não tenho grandes dúvidas, algumas delas serão provocadas de uma forma muito mais premeditada e consciente, fruto de inquietações pessoais de cidadãos anónimos que tentam, com maior ou menor sucesso, agitar a consciência colectiva da sociedade.

Obviamente que um optimismo excessivo, além de ingénuo, pode ter efeitos perniciosos; Temos um longo caminho a percorrer e a responsabilidade de educar e estimular as novas gerações (que apesar de tudo têm em relação a nós a vantagem de terem nascido praticamente durante a presente revolução informática e mediática – são aqueles que dependem do rato e, nas palavras do autor, por ele procuram) a criarem um sentido crítico que lhes permita aproveitar o enorme potencial comunicacional (linda rima 😛 ) e de conhecimento de que dispõem.

Ainda assim, desculpem-me o discurso algo retrógrado ou pessimista mas a verdade é que tenho sérias dúvidas em relação a que jovens como os que publicaram o vídeo da agressão à professora por parte da colega estejam muito preocupados com os problemas da sociedade actual. Talvez acordem para a vida e o façam quando chegarem ao mercado de trabalho e se depararem com dificuldades reais? Por agora, possíveis falácias aparte, parece-me que estão mais ocupados a ver os Morangos com Açúcar e, talvez um pouco devido a estes, a desperdiçar as horas que passam na internet (apesar de, de uma forma algo irónica, contribuírem ingenuamente para essa enorme piscina de conhecimento, pelo simples facto de nela se mostrarem em todo o seu esplendor)… Se acabarão por largar os media convencionais e aprender com o conhecimento acumulado entretanto pela sociedade da informação, isso só se saberá no futuro. 😉

Ainda assim, independentemente de o fazerem ou não (e é aqui que entramos na parte elitista do meu post, preparem-se), segundo o autor, mesmo os poucos (em termos estritamente estatísticos) que aproveitarem este novo meio poderão aspirar a uma influência considerável, capaz de rivalizar com os actuais detentores do poder na sociedade, servindo porventura como fiel da balança. Se se conseguir, contra ventos e marés (sem querer ser demasiado alarmista, já há prenúncios preocupantes, dos quais ainda falarei neste blog, de uma evolução no sentido inverso 😐 ), manter a internet como um bastião da liberdade de expressão, poderemos, seguramente, contar com essa mudança no equilíbrio de forças do Poder, tão necessária nos dias de hoje. Podem esperar, da minha parte, algumas contribuições próprias caso encontre pretextos e a difusão de trabalhos relevantes nesse âmbito. 🙂

Johnny

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3 Responses to “À procura do rato”


  1. Junho 11, 2008 às 8:25 am

    Realmente, abandonei a televisão e passei a produzir meus próprios “conteúdos” na Internet, por assim dizer. Poderia comentar também sobre outras passagens do texto, mas meu cansaço não permite. Ficará para o próximo “post”.

  2. 2 Manel
    Junho 23, 2008 às 3:10 pm

    Acho um fascismo que quando referes a wikipedia, o link que aparece vá remetar à wikipédia em língua inglesa em vez de ir (e assim é que estaria bem) para a wikipedia lusófona. O comentário era só mesmo para referir isto, dado que sou um wikimaníaco compulsivo. De resto nada a apontar, a não ser que o site tem a sua graça.

    Só para terminar, gostava de deixar um comentário ao post; eu também passo mais tempo agora na internet. O tempo que antes passava a ver TV ou a jogar computador, passo-o agora na internet, nomeadamente na wikipedia LUSÓFONA, a contribuir com os meus conhecimentos para tentar de alguma forma melhorar o mundo da comunicação, informação e conhecimento que é esta internet (em vez de estar deitado no sofá a ver os “Morangos com Açúcar”).

    Abraços

  3. 3 João
    Junho 25, 2008 às 5:28 am

    Point taken, acrescentei o link para a Wikipedia lusófona. 😉

    Fico satisfeito por comentares este post, bem-vindo! 🙂
    Quanto à Wikipedia e outros projectos similares, é sempre bom haver alguém a dar o exemplo… Melhor mesmo era que isso chegasse para convencer os outros a fazer o mesmo, o que nem sempre acontece (sendo que eu dou o exemplo quase oposto, por não contribuir, mas ao menos redimo-me publicitando o projecto…).


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