Archive for the 'Mestrado DC&NM' Category

04
Fev
11

Post#05 [Cultura Remix]: “Cultures Compared”

Na sua sua obra “Remix” [1], Lawrence Lessig aborda todo o universo das novas formas de cultura de massas possibilitadas pelos crescente acesso aos meios de produção de media, assim como as questões políticas e económicas ao nível dos direitos de autor que lhe estão associadas, e a forma como as mesmas afectam e são afectadas pelos canais de produção e distribuição de media tradicionais.

Mais especificamente, no capítulo por mim abordado no âmbito deste tema Lessig faz o confronto e a análise de ambos os universos culturais por si citados e baptizados, respectivamente, de “Read Only” (“leitura apenas” ou RO) e “Read/Write” (“leitura/escrita” ou RW) em cinco planos distintos, a saber: o plano dos valores humanos, o plano do valor monetário/económico, o plano do valor/qualidade intrínseca dos objectos e, finalmente, o plano legal/burocrático, rematando em seguida o processo por meio da formulação de conclusões.

Ao nível dos valores, o autor enfatiza as vantagens da cultura RW no desenvolvimento estruturado de toda uma ética profissional, ao envolver os estudantes no processo de aprendizagem, conferindo-lhes um certo poder e responsabilidade, valências muito mais importantes do que o simples valor informativo ou de entretenimento. Lessig Identifica este valor de literacia cultural igualmente fora do plano profissional, ao nível dos consumidores, uma vez que lhes confere um sentido crítico acrescido e uma capacidade de acrescentar algo ao que lhes é oferecido.

No campo do valor monetário, o autor argumenta que seria possível rentabilizar as novas estruturas criativas características da cultura RW muito para além dos prejuízos em que as estruturas produtivas vigentes incorrem no combate sem escrúpulos que movem actualmente àquela. Na base da sua opinião está o mercado de pequenos produtos electrónicos que possibilitam esta nova força produtiva, a crescente conectividade como catalisador decisivo dessa cultura e, finalmente, o carácter anti-competitivo das indústrias criativas estabelecidas.

Já no que toca ao valor intrínseco dos objectos resultantes da cultura RW o autor admite que, pelo menos no plano estético, muitos destes ficam francamente aquém daqueles produzidos pelas estruturas tradicionais da cultura RO mas frisa, por outro lado, que as técnicas de remistura obrigam os artistas e os autores a fazerem um esforço de pesquisa histórica e re-interpretação de obras anteriores e, por conseguinte, levam igualmente os fruidores dessas mesmas obras a reconstituírem esse processo de pesquisa, por forma a melhor compreendê-las. Lessig explicita igualmente argumentos de outro autor, Steven Johnson, segundo o qual até as produções tradicionais se complexificaram largamente ao nível dos enredos, agora menos redundantes, numa estratégia de concorrência com as produções da cultura RW e de maximização dos lucros.

Finalmente, no que diz respeito às questões legais e burocráticas, área da especialidade de Lessig, o autor constata que o desfasamento entre o panorama tecnológico conducente ao aparecimento da cultura RW e a legislação reguladora dos direitos de autor e copyright tem vindo a ser ajustado não no sentido de um relaxamento das restrições legais, mas sim de um recrudescimento das mesmas acompanhado de novas limitações tecnológicas como os sistemas de Digital Rights Management (DRM), que têm como função impedir a criação e reprodução indiscriminada de cópias digitais de ficheiros.

Ainda no campo legal, o autor ressalva a questão da equiparação legal da reprodução digital parcial à cópia física não-autorizada e a forma como este enquadramento é injusto e desajustado quando comparado com a posição face à improvisação baseada em temas registados, prática corrente nos círculos do Jazz, facto para o qual Kirby Ferguson chama também à atenção no primeiro episódio de quatro da sua série “Everything is a Remix” [2]. Lessig é, assim, extremamente crítico face às responsabilidades da classe dos advogados, a que pertence, e das chefias da indústria discográfica na manutenção do actual estado de litígio constante, factor profundamente desencorajador para o estabelecimento de uma verdadeira cultura de RW.

Neste ponto particular, aproveito para frisar a discrepância, porventura hipócrita, ao nível do grau de permissividade interna e mútua demonstrado pelos grandes grupos económicos e, em especial, a indústria cinematográfica de Hollywood (muito apoiada nas facilidades de licenciamento e protecção contra eventuais litígios proporcionada pelos vastos catálogos de filmes e guiões que os estúdios colocam à disposição dos realizadores que contratam), como está patente no segundo episódio da série de Kirby [3].

As conclusões retiradas pelo autor são, num primeiro momento, que a cultura RO é, malgrado as atitudes dos seus proponentes e defensores, importante e continuará a ter sucesso na era digital e que a cultura RW, evidentemente devido às vantagens entretanto enunciadas, terá também um papel e valor inestimáveis. Associando esta última a uma ideia de liberdade, Lessig relembra que o sucesso da mesma depende, ainda que parcialmente, da lei, que considera ser actualmente auto-destrutiva e mais lesiva até do que até as quebras de lucros declaradas pelas indústrias culturais.

Explica-nos ainda que é impossível evitar essas práticas culturais, servindo essa atitude apenas para criminalizá-las e afastá-las de estruturas idóneas como sejam insituições de ensino que, de outra forma, as poderiam acolher e estimular. Propõe ainda algumas soluções práticas alternativas como a cobrança de taxas para a manutenção de serviços de peer-to-peer, as quais seriam posteriormente redistribuídas pelos autores em função da sua popularidade nesses mesmos serviços.

É de vital importância contextualizar as opiniões e os estudos deste autor no contexto da produção em Novos Media, nomeadamente a produção de conteúdos gerados pelos utilizadores de serviços de partilha e distribuição de ficheiros como sejam os já referidos servidores de peer-to-peer e outras plataformas populares como o YouTube ou o Vimeo; Lawrence Lessig foi professor de Direito nas universidades de Chicago, Harvard e Stanford, tendo-se especializado em questões relacionadas com a Internet e os Novos Media e fundado naquela última o “Center for Internet and Society”.

Activista político de ideias liberais, Lessig tomou parte da solução para os problemas de gestão de direitos de autor no contexto dos Novos Media e da cultura RW nas suas próprias mãos ao fundar a organização Creative Commons (CC), pioneira no estabelecimento de licenças alternativas mais abertas e de aplicação simples e compreensível para os utilizadores. Nos dias de hoje é muito comum encontrar-se obras licenciadas através do sistema CC nas suas múltiplas variantes, algumas das quais já foram defendidas com sucesso nos tribunais, provando-se assim a sua eficácia na defesa e protecção dos direitos parciais de atribuição de autoria, utilização somente para fins não-lucrativos e cópia dos termos de licença em obras derivativas.

Se a popularidade do sistema CC continuar a aumentar, poder-se-á assistir a um eventual relaxamento das restrições legais à reprodução e re-mistura de obras digitais, à semelhança do que aconteceu ao nível técnico com a abolição dos sistemas de DRM ao nível da secção de música das lojas de descarregamento digital do iTunes e da Amazon, numa harmonização entre a lei e o uso real que é dado pelos utilizadores a essas mesmas obras.

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Referências:

[1]↩ LESSIG, Lawrence (2008),
Remix: Making Art and Commerce Thrive in the Hybrid Economy
(cap. VI — Cultures Compared), Bloomsbury Academic 2008;
[2]↩ FERGUSON, Kirby (2010), Everything is a Remix (parte I)
[3]↩ FERGUSON, Kirby (2010), Everything is a Remix (parte II)

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04
Jan
11

Draft#01: Teoria Memética

Ao longo da História várias mudanças de paradigma ao nível da Ciência desencadearam alterações profundas da percepção da Humanidade face ao meio físico onde habita e à sua condição e a da biosfera em geral; são disso exemplo, no primeiro caso, as teorias heliocêntricas de Copérnico e Galileu ou a teoria da Relatividade de Einstein ou, no segundo, a publicação em 1859 de “A Origem das Espécies” por Charles Darwin.

Com o advento dos avanços ao nível da genética surge também a teoria memética, formulada por Richard Dawkins no seu livro “The Selfish Gene”, a qual consiste num modelo de transmissão/reprodução e mutação de ideias equiparado ao da transmissão de genes, sendo estas unidades de informação apelidadas de memes, a sua transmissão feita de cérebro para cérebro no âmbito da cultura humana e a sua velocidade de mutação exponencialmente superior à dos seus congéneres físicos:

Examples of memes are tunes, ideas, catch-phrases, clothes, fashions, ways of making pots or of building arches. Just as genes propagate themselves in the gene pool by leaping from body to body via sperms or eggs, so memes propagate themselves in the meme pool by leaping from brain to brain via a process which, in the broad sense, can be called imitation. If a scientist hears, or reads about, a good idea, he passes it on to his colleagues and students. He mentions it in his articles and his lectures. If the idea catches on, it can be said to propagate itself, spreading from brain to brain. [1]

No seu contexto, relativamente análogo ao dos genes, Dawkins alerta-nos para o carácter potencialmente egoísta dos mesmos; referindo-se primeiramente aos genes mas incluindo os memes na sua afirmação, postula:

Selfish genes (and, if you allow the speculation of this chapter, memes too) have no foresight. They are unconscious, blind, replicators. The fact that they replicate, together with certain further conditions means, willy nilly, that they will tend towards the evolution of qualities which, in the special sense of this book, can be called selfish. A simple replicator, whether gene or meme, cannot be expected to forgo short-term selfish advantage even if it would really pay it, in the long term, to do so. [2]

Na sua palestra TED sobre “Memes e ‘Temes’” Susan Blackmore reporta-se também ao carácter potencialmente independente dos replicadores biológicos e culturais já referidos, os genes e os memes, e os seus congéneres tecnológicos para cuja emergência aponta, os temes, vaticinando um iminente e perigoso cenário de transição para a Humanidade:

The processes are getting different: we began perhaps five thousand years ago with writing; we put the storage of memes out there on a clay tablet. But in order to get true temes and true teme machines you need to get the variation, selection and copying all done outside of humans. And we are at this extraordinary point near where there are machines like that.

Actually, the temes are now forcing our brains to become more like teme machines: our children are growing up very quickly, learning to read and use machinery, we are going to have all kinds of implants and drugs that force us to stay awake all the time. We will think we are choosing these things, but the temes are making us do it. So we are now at the cusp of having a third replicator on our planet. [3]

Também Jared Diamond, autor de “Guns, Germs and Steel”, explicita o potencial simultaneamente construtivo e destrutivo do progresso cultural e genético, especialmente no que à concorrência entre sociedades com historiais diferenciados diz respeito, nomeando como exemplos, entre outros, os vários ímpetos colonialistas das sociedades europeias.

Os resultados deste tipo de discrepâncias são igualmente abordadas por Tim Samuels na sua série documental para a BBC sobre a indústria pornográfica intitulada “Hardcore Profits”, a qual se foca nos impactos nefastos que a exportação, inadvertida ou não, de bens culturais carregados com determinados memes pode ter sobre destinatários sem a devida preparação e consequente capacidade de contextualização e interpretação dos mesmos. Nas palavras do jornalista no The Guardian:

The concerns aren’t theoretical – I met young fathers with HIV whose only sex education came from LA, women living in the villages subject to post-screening abuse, and even a shy teenage virgin who has written to a porn outfit in California asking to star in their films (his return address was care of the local church in Accra).

The porn producers aren’t deliberately pushing their products into Africa. But the tide of black market DVDs on sale at street markets and hardcore clips viewable at internet cafes is almost unstoppable. Surely this multibillion-dollar industry needs to take some responsibility for the human costs?

Since the only sex education some people in places such as Ghana are getting is via porn films, there is a decent argument for the porn industry to produce more films where performers use condoms. In LA, where the majority of the world’s porn is still shot, only one company routinely makes such films. The condom-only policy adopted following an industry HIV outbreak five years ago lasted just months. [4]

Parecem confirmar-se na actualidade, na prática, os receios de Dawkins face ao potencial pernicioso dos memes quando entregues a si mesmos e ao seu egoísmo pela ganância cega dos Homens. Mas o autor mostra-nos também uma réstia de optimismo e menciona as capacidades de antevisão do ser humano face ao poder destes replicadores culturais, e de altruísmo (ainda que eventualmente assente num egoísmo a longo prazo) para com aqueles que por ele possam ser afectados:

One unique feature of man, which may or may not have evolved memically, is his capacity for conscious foresight. […]

It is possible that yet another unique quality of man is a capacity for genuine, disinterested, true altruism. I hope so, but I am not going to argue the case one way or the other, nor to speculate over its possible memic evolution. The point I am making now is that, even if we look on the dark side and assume that individual man is fundamentally selfish, our conscious foresight—our capacity to simulate the future in imagination—could save us from the worst selfish excesses of the blind replicators. We have at least the mental equipment to foster our long-term selfish interests rather than merely our short-term selfish interests. […]

We can even discuss ways of deliberately cultivating and nurturing pure, disinterested altruism— something that has no place in nature, something that has never existed before in the whole history of the world. We are built as gene machines and cultured as meme machines, but we have the power to turn against our creators. We, alone on earth, can rebel against the tyranny of the selfish replicators. [5]

A teoria memética de Dawkins parece-me, ao fim e ao cabo, apontar para a crescente necessidade, especialmente neste mundo globalizado pautado pela facilidade de criação de cópias de bens culturais e pela rapidez da transmissão destas, de uma nova consciência e ética comunicacionais. Como afirma categoricamente Dan Dennett na sua palestra TED sobre “Memes Perigosos”, a criação e propagação de memes traz consigo associada a enorme responsabilidade de monitorização e, dentro dos limites do possível, de controlo da evolução dos mesmos, incluindo as próprias teorias memética e evolucionista:

I think we are all responsible for not just the intended effects of our ideas but also for their likely misuses. So it is important to Richard [Dawkins] and to me that these ideas not be abused and misused – they are very easy to misuse, that is why they are dangerous. It is just about a full-time job trying to prevent people who are scared of these ideas from caricaturing them and then running off to one dire purpose or another. We have to keep plugging away, trying to correct the misapprehensions so that only the benign and useful variants of our ideas continue to spread. [6]

Visto não ser garantida a correcta interpretação das mensagens pelos seus receptores/consumidores (por estes poderem nem pertencer, inclusive, ao público-alvo original para o qual são desenvolvidas), cabe então aos emissores/produtores a responsabilidade de se certificarem que aquelas não são deturpadas de formas prejudiciais e de, nessa eventualidade, tomarem as devidas diligências com vista a corrigir essas situações.

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Referências:

[1]↩ DAWKINS, Richard (1976), The Selfish Gene. NY: Oxford University Press 2006, p. 192
[2]↩ idem, p. 200
[3]↩ BLACKMORE, Susan (2008), Susan Blackmore on Memes and Temes. Monterrey: TED talks (TED.com), 12’30”
[4]↩ SAMUELS, Tim (2009), Africa Goes Hardcore, Londres: The Guardian (30/08/2009)
[5]↩ DAWKINS, Richard, op. cit., pp. 200-201
[6]↩ DENNETT, Daniel (2002), Dan Dennett on dangerous memes. Monterrey: TED talks (TED.com), 6’41”

25
Nov
10

Post#02 [Mediação Digital]: Mediated Spaces

Na exploração das relações que se estabelecem entre os media e os espaços é possível definir duas vertentes distintas: os media enquanto espaços de partilha virtuais e análogos aos seus congéneres físicos, e os espaços, em particular os das cidades, enquanto ambientes sujeitos à influência decisiva dos media.

Segundo afirmam Bolter e Grusin no seu livro “Remediation: Understanding New Media”, os processos de remediação afirmam os media como tendo uma presença tão real na nossa cultura como quaisquer outros objectos e infra-estruturas físicas:

“The process of remediation makes us aware that all media are at one level a “play of signs,” which is a lesson that we take from poststructuralist literary theory. At the same time, this process insists on the real, effective presence of media in our culture. Media have the same claim to reality as more tangible cultural artifacts; photographs, films, and computer applications are as real as airplanes and buildings.” [1]

Por outro lado, apontam as cidades como espaços mediados por excelência e, por conseguinte, passíveis de serem alvo de estratégias de remediação, tal como acontece no caso dos parques de diversões:

“Real cities and towns are themselves media spaces, which theme parks reproduce and refashion. With their libraries, theaters, museums, and galleries, cities have always been locations for our culture’s prestigious media (When tourists arrive in famous cities, their major task is to visit such media locations). Since industrialization, cities have also been the principal sites for the “new” media of mechanical, electric, and now electronic technology, such as movies and television.” [2]

O já anteriormente citado Howard Rheingold compara, desta feita no seu livro “The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier”, a sua visão mais optimista do resultado dos poderes de democratização das tecnologias de redes a um “ágora electrónico”, estabelecendo um paralelo funcional entre esses novos media e aquele que era, por definição, o espaço de reunião e debate públicos na polis clássica; reforçará, igualmente, essa posição ao associar a ideia de ciber-espaço à capacidade de governo autónomo por parte das populações, esta última apenas possível graças aos contactos informais que o primeiro, à semelhança dos espaços de reunião físicos, proporciona aos seus membros:

“Two powerful and opposed images of the future characterize the way different observers foresee the future political effects of new communications technology. The utopian vision of the electronic agora, an “Athens without slaves” made possible by telecommunications and cheap computers and implemented through decentralized networks like Usenet and FidoNet, has been promoted by enthusiasts, including myself, over the past several years. I have been one of the cheerleaders for people like Dave Hughes and Mitch Kapor as they struggled to use CMC [computer mediated communication] to give citizens some of the same media powers that the political big boys wield. And I admit that I still believe that this technology, if properly understood and defended by enough citizens, does have democratizing potential in the way that alphabets and printing presses had democratizing potential.

[…]

“There is an intimate connection between informal conversations, the kind that take place in communities and virtual communities, in the coffee shops and computer conferences, and the ability of large social groups to govern themselves without monarchs or dictators. This social-political connection shares a metaphor with the idea of cyberspace, for it takes place in a kind of virtual space that has come to be known by specialists as the public sphere.” [3]

Ainda relativamente ao ciber-espaço e contrapondo-se a uma possível transcendência do mesmo, Bolter e Grusin concluem o seu discurso de forma peremptória e definitiva:

“In matters pertaining to the theology of cyberspace, we must declare ourselves agnostics. We do not believe that cyberspace is an immaterial world, but that it is very much a part of our contemporary world and that it is constituted through a series of remediations. As a digital network, cyberspace remediates the electric communications networks of the past 150 years, the telegraph and the telephone; as virtual reality, it remediates the visual spaces of painting, film, and television; and as a social space, it remediates such historical places as cities and parks and such nonplaces as theme parks and shopping malls. Like other contemporary mediated spaces, cyberspace refashions and extends earlier media, which are themselves embedded in material and social environments.” [4]

Mas não só o ciber-espaço é um campo onde são utilizados processos de remediação de vários espaços; alguns destes últimos, em particular aqueles apelidados pelos autores de “não-lugares” como sejam os centros comerciais ou os aeroportos, apresentam-se eles próprios como alvo de estratégias de hipermediacia:

“As much as it celebrates other aspects of capitalism, the mall celebrates the hypermediacy of our culture and calls forth a postmodern version of the flâneur, whose gaze, as she walks amid all these competing media, is a series of fragmented, sidelong, and hypermediated glances.” [5]

Bolter e Grusin citam ainda Augé, o qual postula que tais não-lugares proporcionam uma combinação de uma “individualidade solitária combinada com uma mediação não-humana entre o indivíduo e a autoridade pública”, e acrescentam ainda que os mesmos “são definidos não pela associação com a história ou a geografia do local mas sim pelos media que contém” [6], sendo possível estabelecer uma ponte sólida entre este ponto de vista sobre os não-lugares e aquele defendido por Guy Debord em relação à proliferação dos mesmos no seu livro “La Société du Spectactle”:

“As “cidades novas” do pseudocampesinato tecnológico inscrevem claramente no terreno a ruptura com o tempo histórico sobre o qual são construídas; a sua divisa pode ser: “Aqui mesmo nunca acontecerá nada, e nunca aqui aconteceu nada”. É, evidentemente, porque a história que é preciso libertar nas cidades ainda aqui não foi liberta, que as forças da ausência histórica começam a compor a sua própria e exclusiva paisagem.” [7]

Já Rheingold, como seria expectável, não se limita à abordagem de uma perspectiva optimista da relação entre os espaços e os media, reportando-se (como o fez igualmente Lev Manovich en passant) [8] ao conceito arquitectónico do Panopticon, formulado por Jeremy Bentham no final do séc. XVIII e estudado por Michel Foucault no seu livro “Discipline & Punish: The Birth of the Prison” enquanto conceito mais genérico de controlo de massas, o qual cita, neste âmbito, o próprio Bentham:

“The crowd, a compact mass, a locus of multiple exchanges, individualities merging together, a collective effect, is abolished and replaced by a collection of separated individualities. From the point of view of the guardian, it is replaced by a multiplicity that can be numbered and supervised; from the point of view of the inmates, by a sequestered and observed solitude (Bentham, 60-64).” [9]

Este resultado prático, em particular, das ideias de Bentham é, aliás, explicitamente mencionado por Debord como sendo também o fim último de um urbanismo dito capitalista, através do qual o sistema se apoderaria “dos indivíduos isolados em conjunto, em espaços “especialmente organizados para os fins [de uma] pesudocolectividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar”. [10] De novo, a lição a reter relativamente à mediação do espaço e à gestão e utilização dos espaços mediados é a de que o sentido crítico e a perseverança serão os factores decisivos na manutenção dos mesmos para fins construtivos, de acordo com a óptica visionária de Rheingold.

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Referências:

[1]↩ BOLTER, J. David e GRUSIN, Richard (2000), Remediation: Understanding New Media, p. 19
[2]↩ idem, p. 173
[3]↩ RHEINGOLD, Howard (1993), The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier
[4]↩ BOLTER, J. David e GRUSIN, Richard, op. cit., pp. 182-183
[5]↩ idem, p. 175
[6]↩ ibidem, pp. 178-179
[7]↩ DEBORD, Guy (1967), A Sociedade do Espectáculo. Lisboa: Edições Antipáticas 2010, Tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, p. 126
[8]↩ Lev Manovich: The Language of New Media, p. 218
[9]↩ FOUCAULT, Michel (1975), Discipline & Punish: The Birth of the Prison. NY: Vintage Books 1995
[10]↩ DEBORD, Guy, op. cit., p. 122

20
Nov
10

Post#04 [Hipertexto]: Hypertext and the Limits of Interactivity

Os sistemas de hipertexto, elemento essencial no tecido da World Wide Web, começaram a ser desenvolvidos e explorados, muito antes de esta coalescer, por especialistas da Universidade de Brown, nomeadamente em 1968 por Ted Nelson e Andries Van Dam no âmbito do seu Hypertext Editing System, e em 1985, com o desenvolvimento do sistema Intermedia por parte da equipa do Institute for Research in Information and Scholarship, liderada por Norman Meyrowitz [1].

Este último sistema viria a ser utilizado por outro professor da mesma universidade, George P. Landow, no desenvolvimento de publicações hipertextuais no âmbito da cultura e literatura inglesa da época vitoriana; Landow exaltava em 1991 no seu livro “Hipertext: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology” as qualidades do “texte scriptible” como definido por Roland Barthes no seu livro “Le Plaisir du Texte”, assim como as potencialidades do sistema Intermedia no campo do ensino:

“A full hypertext system, unlike a book and unlike some of the first approximations of hypertext currently available (Hypercard, Guide), offers the reader and writer the same environment. Therefore, by opening the text-processing program or editor, as it is known, you can take notes, or you can write against my interpretations, against my text. Although you cannot change my text, you can write a response and then link it to my document. You thus have read the readerly text in several ways not possible with a book: you have chosen your reading path, and since you, like all readers, will choose individualized paths, the hypertext version of this book would probably take a very different form, perhaps suggesting the values of alternate routes and probably devoting less room in the main text to quoted passages. You might have also have begun to take notes or produce responses to the text as you read, some of which might take the form of texts that either support or contradict interpretations proposed in my texts.” [2]

Avançando até 1998 deparamo-nos com uma visão mais céptica em relação às aplicações do hipertexto na Web, então já na sua fase de expansão acelerada; seria este factor de democratização crescente que levaria Ursula K. Heise a questionar-se, na edição 3.2 da publicação on-line 21stC, sobre as possíveis limitações da web enquanto sistema hipertextual por excelência à medida que a mesma se adensava, por vezes com efeitos negativos sobre o usufruto dos conteúdos publicados, manifestando no entanto as devidas preocupações face ao carácter redutor e nefasto de que as abordagens de filtragem desse mesmo conteúdo se poderiam revestir:

“[…] Anyone who has visited the World Wide Web will no doubt appreciate the multiplicity of connections that hypertextual links offer to the user.
But surfing the net also illuminates the problems that come with this openness: Links may lead to important or irrelevant sites, to accurate or inaccurate information, with often no easy way for the non-expert to tell the difference. The use of hypertext documents in research and teaching can involve similar problems: If every participant can add his or her own modules of information, comments, and links to the whole, some filtering and control mechanisms must ensure the accuracy and relevance of the added material, or the document may disintegrate into an amorphous mix of information and misinformation. But introducing such mechanisms means somehow curtailing the openness and egalitarianism of hypertextual collaboration.” [3]

Julgo ser pertinente, neste contexto, referenciar os sistemas de reputação por classificação mútua, defendidos pelo anteriormente citado Howard Rheingold, como uma abordagem porventura viável na filtragem de conteúdos, apesar da potencial barreira de entrada que os sistemas mais assentes na moderação possam introduzir nas respectivas plataformas, como acontece até certo ponto no caso da Wikipédia [4], por exemplo.

Quanto aos projectos de cariz criativo, Heise mostra-se igualmente reticente quanto às supostas vantagens da hipertextualidade, postulando que o uso e abuso da mesma pode antes dar origem a obras sem potencial para levar os seus destinatários a questionar o status quo:

“The use of hypertext for creative purposes raises different but related problems.
[…] Hypertext novels, along with some of their print predecessors, also reveal the limits of interactivity. Many of the sequences the reader may choose, as even advocates of hypertext fiction admit, do not make for particularly compelling reading; this is not necessarily due to lack of talent on the authors’ part, since by their very nature, hypertextual and interactive novels leave the completion of the work of art up to the reader. But this restructuring of the creative process, even as it may be more democratic than the earlier emphasis on the consumption of finished aesthetic products, does not automatically have the progressive ideological implications writers and critics have claimed for it. While such innovative forms of writing may shake readers out of a passive consumer attitude, these structures also force them to fall back on their own preconceptions. By refusing to present the reader with a completely different world of the author’s making, interactive aesthetic forms can contribute to reinforcing the audience’s pre-established world views – rather than disrupting them, as revolutionary works of art often do.” [5]

Não obstante as reservas da autora, a mesma considera que os sistemas de hipertexto podem ser decisivos no estudo e interpretação dos processos de leitura, aprendizagem, construção de conhecimentos e fruição de objectos artísticos.

A conclusão a retirar da divergência de opiniões sobre este tópico é a de que a utilização de estratégias hipertextuais pode produzir resultados largamente díspares em função dos conteúdos ou plataformas a que estão associadas, do contexto em que se inserem e do público a que se destinam, pelo que não deverá ser descurado qualquer um destes factores na análise de exemplos particulares.

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Referências:
The Electronic Labyrinth – Intermedia
LANDOW, George P., Reading and Writing in a Hypertext Environment
HEISE, Ursula K., Hypertext and the limits of interactivity
BARNES, Billy, The truth about Wikipedia’s flagged revisions
HEISE, Ursula K., op. cit.

18
Nov
10

Post#01 [Interactividade]: On Totalitarian Interactivity

A interactividade, processo que pressupõe uma participação activa por parte do destinatário final de um dado objecto, pode, de acordo com as várias categorias definidas por Lev Manovich no seu livro “Language of New Media” no âmbito da formulação do princípio da variabilidade, processar-se em vários graus que vão desde um simples processo de fruição desse objecto até à reconfiguração parcial ou total do mesmo, num processo sempre orientado em função do input do utilizador:

In the case of branching interactivity, the user plays an active role in determining the order in which the already generated elements are accessed. This is the simplest kind of interactivity; more complex kinds are also possible where both the elements and the structure of the whole object are either modified or generated on the fly in response to user’s interaction with a program. We can refer to such implementations as open interactivity to distinguish them from the closed interactivity which uses fixed elements arranged in a fixed branching structure. Open interactivity can be implemented using a variety of approaches, including procedural and object- oriented computer programming, AI, AL, and neural networks.

Referindo-se ao extremo mais fechado das abordagens interactivas e estabelecendo pontes com os regimes totalitários do Leste da Europa, o próprio Manovich alerta-nos no seu ensaio “On Totalitarian Interactivity”, numa visão pessimista, para a substituição que estas fazem das estruturas mentais próprias do utilizador/fruidor de um dado objecto por aquelas do seu criador, processo esse de cariz potencialmente “totalitário” e no qual é apenas esperada uma interacção física e não psicológica:

All classical, and even more so modern art was already “interactive,” requiring a viewer to fill in missing information (for instance, ellipses in literary narration; “missing” parts of objects in modernist paiting [sic]) as well as to move his / her eyes (composition in painting and cinema) or the whole body (in experiencing sculpture and architecture). Computer interactive art takes “interaction” literally, equating it with strictly physical interaction between a user and a artwork (pressing a button), at the sake of psychological interaction. The psychological processes of filling-in, hypothesis forming, recall and identification – which are required for us to comprehend any text or image at all – are mistakingly identified strictly with an objectively existing structure of interactive links.

A reflexão de Manovich sobre este processo potencialmente pernicioso e impositivo será um apontador a ter em conta, de futuro, por mim na exploração de projectos pré-existentes; já no caso de futuros projectos próprios, esse processo poderá ser contrariado ou, em alternativa, manifestamente assumido, consoante o âmbito dos mesmos assim o exiga.

15
Nov
10

Post#03 [Pessoal-Colectivo]: Colaboração & Smart Mobs

É inegável o carácter potencialmente revolucionário que as novas tecnologias móveis terão sobre as sociedades humanas, tanto ao nível da sua estruturação institucional como dos fluxos comunicacionais e das relações sócio-afectivas.

Mais especificamente, tem que ser tido em conta o potenciamento da colaboração entre pares, independentemente do seu grau de afastamento cultural ou geográfico, factor proporcionado pela combinação de ferramentas de produção e difusão de conteúdos e comunicação interpessoal num mesmo objecto, o “keitai” ou “smartphone” (respectivamente nas acepções japonesa e global dessa categoria).

Na década de ’70 do séc. XX, Enzensberger ainda não poderia prever todas as nuances dessa revolução dos media em pormenor no seu ensaio seminal “Constituents of a Theory of the Media”, mas já a preconizava, tal como os seus efeitos, em linhas mais gerais:

“There is no such thing as unmanipulated writing, filming, or broadcasting. The question is therefore not whether the media are manipulated, but who manipulates them. A revolutionary plan should not require the manipulators to disappear; on the contrary, it must make everyone a manipulator.”

Já Howard Rheingold, cuja obra teórica gira em torno da cooperação tecnologicamente assistida, apresenta-nos no seu livro “Smart Mobs: The Next Social Revolution” uma tipologia de organização extensível a grupos de pessoas com os objectivos mais variados, tendo como base comum a sua génese e funcionamento apoiadas nas tecnologias de informação e o seu carácter cooperativo. Não obstante, e contrariamente a Enzensberger, é mais realista no que toca ao carácter potencialmente maligno desses meios de organização e cooperação e apresenta-se mais cauteloso face aos desafios enfrentados pelos utilizadores dessas plataformas, devido ao seu carácter eventualmente disruptivo do status quo:

“Over the next few years, will nascent smart mobs be neutralized into passive if mobile consumers of another centrally controlled mass medium, with the world divided into a small number of producers and a large population of passive consumers? Or will an innovation commons flourish, in which a large number of consumers also have the power to produce? The convergence of smart mob technologies is inevitable. The way we use these technologies, and the way governments allow us to use them, is very much in question. Technologies of cooperation, or the ultimate disinfotainment apparatus? The next several years are a crucial and unusually malleable interregnum. Especially in this interval before the new media sphere settles into its final shape, what we know and what we do matters.”

Sendo que me proponho fazer uma recolha de exemplos díspares e representativos do continuum High-profile/Low-profile no âmbito da produção em novos media, a patente inquietação de Rheingold quanto ao disinfotainment será, naturalmente, um factor a ter em conta na avaliação daqueles últimos.

15
Nov
10

Mudança de formato

Mais uma vez, tenho a lamentar a minha ausência prolongada da blogosfera… Desta vez, devido a razões práticas relacionadas com a minha área de estudos, tenho agora que me reaplicar nesta actividade que negligenciei durante todo este tempo.

Assim, o espaço deste blog passará a alojar, para além de eventuais pensamentos de cariz pessoal sobre assuntos da actualidade, várias categorias de textos de pesquisa e crítica no âmbito do Mestrado em Comunicação e Novos Media, que ora frequento na FBAUL.

João