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25
Nov
10

Post#02 [Mediação Digital]: Mediated Spaces

Na exploração das relações que se estabelecem entre os media e os espaços é possível definir duas vertentes distintas: os media enquanto espaços de partilha virtuais e análogos aos seus congéneres físicos, e os espaços, em particular os das cidades, enquanto ambientes sujeitos à influência decisiva dos media.

Segundo afirmam Bolter e Grusin no seu livro “Remediation: Understanding New Media”, os processos de remediação afirmam os media como tendo uma presença tão real na nossa cultura como quaisquer outros objectos e infra-estruturas físicas:

“The process of remediation makes us aware that all media are at one level a “play of signs,” which is a lesson that we take from poststructuralist literary theory. At the same time, this process insists on the real, effective presence of media in our culture. Media have the same claim to reality as more tangible cultural artifacts; photographs, films, and computer applications are as real as airplanes and buildings.” [1]

Por outro lado, apontam as cidades como espaços mediados por excelência e, por conseguinte, passíveis de serem alvo de estratégias de remediação, tal como acontece no caso dos parques de diversões:

“Real cities and towns are themselves media spaces, which theme parks reproduce and refashion. With their libraries, theaters, museums, and galleries, cities have always been locations for our culture’s prestigious media (When tourists arrive in famous cities, their major task is to visit such media locations). Since industrialization, cities have also been the principal sites for the “new” media of mechanical, electric, and now electronic technology, such as movies and television.” [2]

O já anteriormente citado Howard Rheingold compara, desta feita no seu livro “The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier”, a sua visão mais optimista do resultado dos poderes de democratização das tecnologias de redes a um “ágora electrónico”, estabelecendo um paralelo funcional entre esses novos media e aquele que era, por definição, o espaço de reunião e debate públicos na polis clássica; reforçará, igualmente, essa posição ao associar a ideia de ciber-espaço à capacidade de governo autónomo por parte das populações, esta última apenas possível graças aos contactos informais que o primeiro, à semelhança dos espaços de reunião físicos, proporciona aos seus membros:

“Two powerful and opposed images of the future characterize the way different observers foresee the future political effects of new communications technology. The utopian vision of the electronic agora, an “Athens without slaves” made possible by telecommunications and cheap computers and implemented through decentralized networks like Usenet and FidoNet, has been promoted by enthusiasts, including myself, over the past several years. I have been one of the cheerleaders for people like Dave Hughes and Mitch Kapor as they struggled to use CMC [computer mediated communication] to give citizens some of the same media powers that the political big boys wield. And I admit that I still believe that this technology, if properly understood and defended by enough citizens, does have democratizing potential in the way that alphabets and printing presses had democratizing potential.

[…]

“There is an intimate connection between informal conversations, the kind that take place in communities and virtual communities, in the coffee shops and computer conferences, and the ability of large social groups to govern themselves without monarchs or dictators. This social-political connection shares a metaphor with the idea of cyberspace, for it takes place in a kind of virtual space that has come to be known by specialists as the public sphere.” [3]

Ainda relativamente ao ciber-espaço e contrapondo-se a uma possível transcendência do mesmo, Bolter e Grusin concluem o seu discurso de forma peremptória e definitiva:

“In matters pertaining to the theology of cyberspace, we must declare ourselves agnostics. We do not believe that cyberspace is an immaterial world, but that it is very much a part of our contemporary world and that it is constituted through a series of remediations. As a digital network, cyberspace remediates the electric communications networks of the past 150 years, the telegraph and the telephone; as virtual reality, it remediates the visual spaces of painting, film, and television; and as a social space, it remediates such historical places as cities and parks and such nonplaces as theme parks and shopping malls. Like other contemporary mediated spaces, cyberspace refashions and extends earlier media, which are themselves embedded in material and social environments.” [4]

Mas não só o ciber-espaço é um campo onde são utilizados processos de remediação de vários espaços; alguns destes últimos, em particular aqueles apelidados pelos autores de “não-lugares” como sejam os centros comerciais ou os aeroportos, apresentam-se eles próprios como alvo de estratégias de hipermediacia:

“As much as it celebrates other aspects of capitalism, the mall celebrates the hypermediacy of our culture and calls forth a postmodern version of the flâneur, whose gaze, as she walks amid all these competing media, is a series of fragmented, sidelong, and hypermediated glances.” [5]

Bolter e Grusin citam ainda Augé, o qual postula que tais não-lugares proporcionam uma combinação de uma “individualidade solitária combinada com uma mediação não-humana entre o indivíduo e a autoridade pública”, e acrescentam ainda que os mesmos “são definidos não pela associação com a história ou a geografia do local mas sim pelos media que contém” [6], sendo possível estabelecer uma ponte sólida entre este ponto de vista sobre os não-lugares e aquele defendido por Guy Debord em relação à proliferação dos mesmos no seu livro “La Société du Spectactle”:

“As “cidades novas” do pseudocampesinato tecnológico inscrevem claramente no terreno a ruptura com o tempo histórico sobre o qual são construídas; a sua divisa pode ser: “Aqui mesmo nunca acontecerá nada, e nunca aqui aconteceu nada”. É, evidentemente, porque a história que é preciso libertar nas cidades ainda aqui não foi liberta, que as forças da ausência histórica começam a compor a sua própria e exclusiva paisagem.” [7]

Já Rheingold, como seria expectável, não se limita à abordagem de uma perspectiva optimista da relação entre os espaços e os media, reportando-se (como o fez igualmente Lev Manovich en passant) [8] ao conceito arquitectónico do Panopticon, formulado por Jeremy Bentham no final do séc. XVIII e estudado por Michel Foucault no seu livro “Discipline & Punish: The Birth of the Prison” enquanto conceito mais genérico de controlo de massas, o qual cita, neste âmbito, o próprio Bentham:

“The crowd, a compact mass, a locus of multiple exchanges, individualities merging together, a collective effect, is abolished and replaced by a collection of separated individualities. From the point of view of the guardian, it is replaced by a multiplicity that can be numbered and supervised; from the point of view of the inmates, by a sequestered and observed solitude (Bentham, 60-64).” [9]

Este resultado prático, em particular, das ideias de Bentham é, aliás, explicitamente mencionado por Debord como sendo também o fim último de um urbanismo dito capitalista, através do qual o sistema se apoderaria “dos indivíduos isolados em conjunto, em espaços “especialmente organizados para os fins [de uma] pesudocolectividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar”. [10] De novo, a lição a reter relativamente à mediação do espaço e à gestão e utilização dos espaços mediados é a de que o sentido crítico e a perseverança serão os factores decisivos na manutenção dos mesmos para fins construtivos, de acordo com a óptica visionária de Rheingold.

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Referências:

[1]↩ BOLTER, J. David e GRUSIN, Richard (2000), Remediation: Understanding New Media, p. 19
[2]↩ idem, p. 173
[3]↩ RHEINGOLD, Howard (1993), The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier
[4]↩ BOLTER, J. David e GRUSIN, Richard, op. cit., pp. 182-183
[5]↩ idem, p. 175
[6]↩ ibidem, pp. 178-179
[7]↩ DEBORD, Guy (1967), A Sociedade do Espectáculo. Lisboa: Edições Antipáticas 2010, Tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, p. 126
[8]↩ Lev Manovich: The Language of New Media, p. 218
[9]↩ FOUCAULT, Michel (1975), Discipline & Punish: The Birth of the Prison. NY: Vintage Books 1995
[10]↩ DEBORD, Guy, op. cit., p. 122