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04
Jan
11

Draft#01: Teoria Memética

Ao longo da História várias mudanças de paradigma ao nível da Ciência desencadearam alterações profundas da percepção da Humanidade face ao meio físico onde habita e à sua condição e a da biosfera em geral; são disso exemplo, no primeiro caso, as teorias heliocêntricas de Copérnico e Galileu ou a teoria da Relatividade de Einstein ou, no segundo, a publicação em 1859 de “A Origem das Espécies” por Charles Darwin.

Com o advento dos avanços ao nível da genética surge também a teoria memética, formulada por Richard Dawkins no seu livro “The Selfish Gene”, a qual consiste num modelo de transmissão/reprodução e mutação de ideias equiparado ao da transmissão de genes, sendo estas unidades de informação apelidadas de memes, a sua transmissão feita de cérebro para cérebro no âmbito da cultura humana e a sua velocidade de mutação exponencialmente superior à dos seus congéneres físicos:

Examples of memes are tunes, ideas, catch-phrases, clothes, fashions, ways of making pots or of building arches. Just as genes propagate themselves in the gene pool by leaping from body to body via sperms or eggs, so memes propagate themselves in the meme pool by leaping from brain to brain via a process which, in the broad sense, can be called imitation. If a scientist hears, or reads about, a good idea, he passes it on to his colleagues and students. He mentions it in his articles and his lectures. If the idea catches on, it can be said to propagate itself, spreading from brain to brain. [1]

No seu contexto, relativamente análogo ao dos genes, Dawkins alerta-nos para o carácter potencialmente egoísta dos mesmos; referindo-se primeiramente aos genes mas incluindo os memes na sua afirmação, postula:

Selfish genes (and, if you allow the speculation of this chapter, memes too) have no foresight. They are unconscious, blind, replicators. The fact that they replicate, together with certain further conditions means, willy nilly, that they will tend towards the evolution of qualities which, in the special sense of this book, can be called selfish. A simple replicator, whether gene or meme, cannot be expected to forgo short-term selfish advantage even if it would really pay it, in the long term, to do so. [2]

Na sua palestra TED sobre “Memes e ‘Temes’” Susan Blackmore reporta-se também ao carácter potencialmente independente dos replicadores biológicos e culturais já referidos, os genes e os memes, e os seus congéneres tecnológicos para cuja emergência aponta, os temes, vaticinando um iminente e perigoso cenário de transição para a Humanidade:

The processes are getting different: we began perhaps five thousand years ago with writing; we put the storage of memes out there on a clay tablet. But in order to get true temes and true teme machines you need to get the variation, selection and copying all done outside of humans. And we are at this extraordinary point near where there are machines like that.

Actually, the temes are now forcing our brains to become more like teme machines: our children are growing up very quickly, learning to read and use machinery, we are going to have all kinds of implants and drugs that force us to stay awake all the time. We will think we are choosing these things, but the temes are making us do it. So we are now at the cusp of having a third replicator on our planet. [3]

Também Jared Diamond, autor de “Guns, Germs and Steel”, explicita o potencial simultaneamente construtivo e destrutivo do progresso cultural e genético, especialmente no que à concorrência entre sociedades com historiais diferenciados diz respeito, nomeando como exemplos, entre outros, os vários ímpetos colonialistas das sociedades europeias.

Os resultados deste tipo de discrepâncias são igualmente abordadas por Tim Samuels na sua série documental para a BBC sobre a indústria pornográfica intitulada “Hardcore Profits”, a qual se foca nos impactos nefastos que a exportação, inadvertida ou não, de bens culturais carregados com determinados memes pode ter sobre destinatários sem a devida preparação e consequente capacidade de contextualização e interpretação dos mesmos. Nas palavras do jornalista no The Guardian:

The concerns aren’t theoretical – I met young fathers with HIV whose only sex education came from LA, women living in the villages subject to post-screening abuse, and even a shy teenage virgin who has written to a porn outfit in California asking to star in their films (his return address was care of the local church in Accra).

The porn producers aren’t deliberately pushing their products into Africa. But the tide of black market DVDs on sale at street markets and hardcore clips viewable at internet cafes is almost unstoppable. Surely this multibillion-dollar industry needs to take some responsibility for the human costs?

Since the only sex education some people in places such as Ghana are getting is via porn films, there is a decent argument for the porn industry to produce more films where performers use condoms. In LA, where the majority of the world’s porn is still shot, only one company routinely makes such films. The condom-only policy adopted following an industry HIV outbreak five years ago lasted just months. [4]

Parecem confirmar-se na actualidade, na prática, os receios de Dawkins face ao potencial pernicioso dos memes quando entregues a si mesmos e ao seu egoísmo pela ganância cega dos Homens. Mas o autor mostra-nos também uma réstia de optimismo e menciona as capacidades de antevisão do ser humano face ao poder destes replicadores culturais, e de altruísmo (ainda que eventualmente assente num egoísmo a longo prazo) para com aqueles que por ele possam ser afectados:

One unique feature of man, which may or may not have evolved memically, is his capacity for conscious foresight. […]

It is possible that yet another unique quality of man is a capacity for genuine, disinterested, true altruism. I hope so, but I am not going to argue the case one way or the other, nor to speculate over its possible memic evolution. The point I am making now is that, even if we look on the dark side and assume that individual man is fundamentally selfish, our conscious foresight—our capacity to simulate the future in imagination—could save us from the worst selfish excesses of the blind replicators. We have at least the mental equipment to foster our long-term selfish interests rather than merely our short-term selfish interests. […]

We can even discuss ways of deliberately cultivating and nurturing pure, disinterested altruism— something that has no place in nature, something that has never existed before in the whole history of the world. We are built as gene machines and cultured as meme machines, but we have the power to turn against our creators. We, alone on earth, can rebel against the tyranny of the selfish replicators. [5]

A teoria memética de Dawkins parece-me, ao fim e ao cabo, apontar para a crescente necessidade, especialmente neste mundo globalizado pautado pela facilidade de criação de cópias de bens culturais e pela rapidez da transmissão destas, de uma nova consciência e ética comunicacionais. Como afirma categoricamente Dan Dennett na sua palestra TED sobre “Memes Perigosos”, a criação e propagação de memes traz consigo associada a enorme responsabilidade de monitorização e, dentro dos limites do possível, de controlo da evolução dos mesmos, incluindo as próprias teorias memética e evolucionista:

I think we are all responsible for not just the intended effects of our ideas but also for their likely misuses. So it is important to Richard [Dawkins] and to me that these ideas not be abused and misused – they are very easy to misuse, that is why they are dangerous. It is just about a full-time job trying to prevent people who are scared of these ideas from caricaturing them and then running off to one dire purpose or another. We have to keep plugging away, trying to correct the misapprehensions so that only the benign and useful variants of our ideas continue to spread. [6]

Visto não ser garantida a correcta interpretação das mensagens pelos seus receptores/consumidores (por estes poderem nem pertencer, inclusive, ao público-alvo original para o qual são desenvolvidas), cabe então aos emissores/produtores a responsabilidade de se certificarem que aquelas não são deturpadas de formas prejudiciais e de, nessa eventualidade, tomarem as devidas diligências com vista a corrigir essas situações.

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Referências:

[1]↩ DAWKINS, Richard (1976), The Selfish Gene. NY: Oxford University Press 2006, p. 192
[2]↩ idem, p. 200
[3]↩ BLACKMORE, Susan (2008), Susan Blackmore on Memes and Temes. Monterrey: TED talks (TED.com), 12’30”
[4]↩ SAMUELS, Tim (2009), Africa Goes Hardcore, Londres: The Guardian (30/08/2009)
[5]↩ DAWKINS, Richard, op. cit., pp. 200-201
[6]↩ DENNETT, Daniel (2002), Dan Dennett on dangerous memes. Monterrey: TED talks (TED.com), 6’41”

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