Posts Tagged ‘Wikipedia

20
Nov
10

Post#04 [Hipertexto]: Hypertext and the Limits of Interactivity

Os sistemas de hipertexto, elemento essencial no tecido da World Wide Web, começaram a ser desenvolvidos e explorados, muito antes de esta coalescer, por especialistas da Universidade de Brown, nomeadamente em 1968 por Ted Nelson e Andries Van Dam no âmbito do seu Hypertext Editing System, e em 1985, com o desenvolvimento do sistema Intermedia por parte da equipa do Institute for Research in Information and Scholarship, liderada por Norman Meyrowitz [1].

Este último sistema viria a ser utilizado por outro professor da mesma universidade, George P. Landow, no desenvolvimento de publicações hipertextuais no âmbito da cultura e literatura inglesa da época vitoriana; Landow exaltava em 1991 no seu livro “Hipertext: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology” as qualidades do “texte scriptible” como definido por Roland Barthes no seu livro “Le Plaisir du Texte”, assim como as potencialidades do sistema Intermedia no campo do ensino:

“A full hypertext system, unlike a book and unlike some of the first approximations of hypertext currently available (Hypercard, Guide), offers the reader and writer the same environment. Therefore, by opening the text-processing program or editor, as it is known, you can take notes, or you can write against my interpretations, against my text. Although you cannot change my text, you can write a response and then link it to my document. You thus have read the readerly text in several ways not possible with a book: you have chosen your reading path, and since you, like all readers, will choose individualized paths, the hypertext version of this book would probably take a very different form, perhaps suggesting the values of alternate routes and probably devoting less room in the main text to quoted passages. You might have also have begun to take notes or produce responses to the text as you read, some of which might take the form of texts that either support or contradict interpretations proposed in my texts.” [2]

Avançando até 1998 deparamo-nos com uma visão mais céptica em relação às aplicações do hipertexto na Web, então já na sua fase de expansão acelerada; seria este factor de democratização crescente que levaria Ursula K. Heise a questionar-se, na edição 3.2 da publicação on-line 21stC, sobre as possíveis limitações da web enquanto sistema hipertextual por excelência à medida que a mesma se adensava, por vezes com efeitos negativos sobre o usufruto dos conteúdos publicados, manifestando no entanto as devidas preocupações face ao carácter redutor e nefasto de que as abordagens de filtragem desse mesmo conteúdo se poderiam revestir:

“[…] Anyone who has visited the World Wide Web will no doubt appreciate the multiplicity of connections that hypertextual links offer to the user.
But surfing the net also illuminates the problems that come with this openness: Links may lead to important or irrelevant sites, to accurate or inaccurate information, with often no easy way for the non-expert to tell the difference. The use of hypertext documents in research and teaching can involve similar problems: If every participant can add his or her own modules of information, comments, and links to the whole, some filtering and control mechanisms must ensure the accuracy and relevance of the added material, or the document may disintegrate into an amorphous mix of information and misinformation. But introducing such mechanisms means somehow curtailing the openness and egalitarianism of hypertextual collaboration.” [3]

Julgo ser pertinente, neste contexto, referenciar os sistemas de reputação por classificação mútua, defendidos pelo anteriormente citado Howard Rheingold, como uma abordagem porventura viável na filtragem de conteúdos, apesar da potencial barreira de entrada que os sistemas mais assentes na moderação possam introduzir nas respectivas plataformas, como acontece até certo ponto no caso da Wikipédia [4], por exemplo.

Quanto aos projectos de cariz criativo, Heise mostra-se igualmente reticente quanto às supostas vantagens da hipertextualidade, postulando que o uso e abuso da mesma pode antes dar origem a obras sem potencial para levar os seus destinatários a questionar o status quo:

“The use of hypertext for creative purposes raises different but related problems.
[…] Hypertext novels, along with some of their print predecessors, also reveal the limits of interactivity. Many of the sequences the reader may choose, as even advocates of hypertext fiction admit, do not make for particularly compelling reading; this is not necessarily due to lack of talent on the authors’ part, since by their very nature, hypertextual and interactive novels leave the completion of the work of art up to the reader. But this restructuring of the creative process, even as it may be more democratic than the earlier emphasis on the consumption of finished aesthetic products, does not automatically have the progressive ideological implications writers and critics have claimed for it. While such innovative forms of writing may shake readers out of a passive consumer attitude, these structures also force them to fall back on their own preconceptions. By refusing to present the reader with a completely different world of the author’s making, interactive aesthetic forms can contribute to reinforcing the audience’s pre-established world views – rather than disrupting them, as revolutionary works of art often do.” [5]

Não obstante as reservas da autora, a mesma considera que os sistemas de hipertexto podem ser decisivos no estudo e interpretação dos processos de leitura, aprendizagem, construção de conhecimentos e fruição de objectos artísticos.

A conclusão a retirar da divergência de opiniões sobre este tópico é a de que a utilização de estratégias hipertextuais pode produzir resultados largamente díspares em função dos conteúdos ou plataformas a que estão associadas, do contexto em que se inserem e do público a que se destinam, pelo que não deverá ser descurado qualquer um destes factores na análise de exemplos particulares.

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Referências:
The Electronic Labyrinth – Intermedia
LANDOW, George P., Reading and Writing in a Hypertext Environment
HEISE, Ursula K., Hypertext and the limits of interactivity
BARNES, Billy, The truth about Wikipedia’s flagged revisions
HEISE, Ursula K., op. cit.

09
Jun
08

À procura do rato

[via Daring Fireball]

 

Clay Shirky, autor do livro “Here Comes Everybody” e especialista na relação inevitável entre progresso tecnológico e social, faz no seu artigo “Gin, Television and Social Surplus” uma análise acutilante a uma situação que sempre despertou uma série de inquietações, umas mais optimistas e outras menos: Cada vez passamos mais tempo “agarrados” (uns mais do que outros 😉 ) ao computador, mais especificamente conectados à internet.

De acordo com o autor, o qual aponta estatísticas nesse sentido, os utilizadores da internet que a ela vivem “agarrados” não têm agora nem mais nem menos tempo livre do que tinham anteriormente; esse é um bem que se tem mantido relativamente inalterado, sendo que o que mudou foi a gestão do mesmo. Assim, começamos agora a investir o nosso tempo na criação de conteúdos próprios em detrimento do consumo acrítico dos produtos propostos pelos media convencionais, nomeadamente a televisão.

Menciona alguns exemplos, entre os quais a extremamente popular Wikipedia (Inglês, Português), como sendo os grandes beneficiários desse investimento e anunciadores da mudança de paradigma que se avizinha. De súbito, os meios de comunicação de massas passam a ser, em certa medida, acessíveis às próprias massas, o que simultaneamente agiliza o processo de recolha e transmissão da informação, assim como aumenta a resistência da mesma face a potenciais manipulações por parte de determinados interesses instituídos.

Não posso deixar de concordar com o autor quando considera que certas actividades aparentemente fúteis como frequentar, quer como consumidor quer como contribuidor, páginas (hilariantes, por sinal 😀 ) como os Lolcats pode ser mais útil que ficar sentado à frente de um ecrã de televisão; digo-o por experiência própria, visto que “a cavalo” de uma actividade maioritariamente lúdica (mesmo sem entrar sequer em considerações sobre a utilidade vital do sentido de humor na vida de uma pessoa) descobri algumas informações inquietantes sobre a indústria da comida para animais, nos fóruns do mesmo site…

Mais: situações como a que se passou recentemente no nosso país, em que um vídeo de uma agressão de uma aluna a uma professora colocado no YouTube acabou nos jornais televisivos e gerou um aceso debate de ideias, repetir-se-ão. E, não tenho grandes dúvidas, algumas delas serão provocadas de uma forma muito mais premeditada e consciente, fruto de inquietações pessoais de cidadãos anónimos que tentam, com maior ou menor sucesso, agitar a consciência colectiva da sociedade.

Obviamente que um optimismo excessivo, além de ingénuo, pode ter efeitos perniciosos; Temos um longo caminho a percorrer e a responsabilidade de educar e estimular as novas gerações (que apesar de tudo têm em relação a nós a vantagem de terem nascido praticamente durante a presente revolução informática e mediática – são aqueles que dependem do rato e, nas palavras do autor, por ele procuram) a criarem um sentido crítico que lhes permita aproveitar o enorme potencial comunicacional (linda rima 😛 ) e de conhecimento de que dispõem.

Ainda assim, desculpem-me o discurso algo retrógrado ou pessimista mas a verdade é que tenho sérias dúvidas em relação a que jovens como os que publicaram o vídeo da agressão à professora por parte da colega estejam muito preocupados com os problemas da sociedade actual. Talvez acordem para a vida e o façam quando chegarem ao mercado de trabalho e se depararem com dificuldades reais? Por agora, possíveis falácias aparte, parece-me que estão mais ocupados a ver os Morangos com Açúcar e, talvez um pouco devido a estes, a desperdiçar as horas que passam na internet (apesar de, de uma forma algo irónica, contribuírem ingenuamente para essa enorme piscina de conhecimento, pelo simples facto de nela se mostrarem em todo o seu esplendor)… Se acabarão por largar os media convencionais e aprender com o conhecimento acumulado entretanto pela sociedade da informação, isso só se saberá no futuro. 😉

Ainda assim, independentemente de o fazerem ou não (e é aqui que entramos na parte elitista do meu post, preparem-se), segundo o autor, mesmo os poucos (em termos estritamente estatísticos) que aproveitarem este novo meio poderão aspirar a uma influência considerável, capaz de rivalizar com os actuais detentores do poder na sociedade, servindo porventura como fiel da balança. Se se conseguir, contra ventos e marés (sem querer ser demasiado alarmista, já há prenúncios preocupantes, dos quais ainda falarei neste blog, de uma evolução no sentido inverso 😐 ), manter a internet como um bastião da liberdade de expressão, poderemos, seguramente, contar com essa mudança no equilíbrio de forças do Poder, tão necessária nos dias de hoje. Podem esperar, da minha parte, algumas contribuições próprias caso encontre pretextos e a difusão de trabalhos relevantes nesse âmbito. 🙂

Johnny